Por mais estranho que possa
parecer, o período que marca o final do ano, a partir da metade do mês de
novembro, tem realmente sido marcado por um aumento considerável no volume de
pessoas que buscam psicoterapia ou apresentam sintomas de sofrimento emocional,
chegando a ser marcante o índice de tentativas de suicídio.
A explicação, apesar de não
científica, fica por conta da ideia de fim de ciclo, como se realmente o final
de um ano fosse o final de uma era em que determinadas questões
obrigatoriamente tivessem que ser resolvidas.
A meta que não se atingiu, o
relacionamento que se manteve instável, a doença que insiste em incomodar e
principalmente o medo das incertezas futuras, chegam a gerar uma sensação de
impotência, que podem levar o indivíduo, a apresentar reações psicossomáticas
com sintomas semelhantes aos de um processo depressivo.
O conceito de que a vida está
resumida em ciclos de 365 dias, o que ,na verdade ,existe apenas para a
organização das rotinas do mundo moderno, da à impressão de que os projetos
pessoais e/ou profissionais precisam ser atingidos em um tempo “x”, e o
insucesso nesse quesito estaria totalmente ligado à incompetência pessoal. Os
sonhos teriam prazo de validade, dando a sensação de que o carro que não se
adquiriu naquele período, jamais virá a ser adquirido e outras coisas mais.
Se esse fato já era percebido
em décadas anteriores, nos últimos 25 ou 30 anos, com a globalização ditando a
urgência, e até mesmo obrigação do sucesso pessoal, esse quadro vem se tornando
ainda mais caótico, chegando a atingir pessoas cada vez mais novas.
Em um mundo em que se prega o
culto ao corpo ideal, a escolha correta da profissão, o destaque socioeconômico
e a felicidade explícita nas relações afetivas, o fato da pessoa sentir-se
impotente diante das adversidades do dia a dia tem sido a chave de quase todos
os problemas.
É importante destacarmos que
não se trata de tristeza, pois a mesma precisa ser concreta. Estamos tristes
quando temos um problema conhecido, com começo, meio e fim e “deprimimos”
quando sentimos um vazio, mesmo sem causa aparente.
Diante dessa situação, que
cada vez se mostra muito mais comum do que imaginamos, a solução fica por conta
de uma atitude de reequilíbrio. Buscar o viver pelo viver, sem a preocupação
com o que “os outros” vão pensar ou como estamos sendo avaliados. Buscar a
comparação interna com questionamentos a respeito do quanto posso melhorar com
relação a minha própria história, deixando de me comparar a aquilo que vejo (e
muitas vezes não é real) em outras pessoas.
Entender que o que
verdadeiramente existe é um dia após o outro e que todos eles são oportunidades
tanto para uma descoberta, quanto para um novo e inusitado projeto.
O simbolismo do ano novo
precisa ser substituído pelo da “renovação de vida” e essa depende
exclusivamente do quanto estamos dispostos a ser os escritores de nossa própria
história ou apenas atores nas histórias que a sociedade insiste em nos querer
ver interpretar.
Como escritor, temos sempre o
direito e o prazer de buscar novos meios e finais. Feliz vida nova.
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